
APENAS UM SORRISO
Quando minha avó ia sair de casa para morrer, fui visitá-la.
Quando minha avó ia sair de casa para morrer, fui visitá-la.
Já nem caminhava mais, abalada pelo câncer.
Naquele dia, seria transferida para o hospital.
Fiquei um tempo ao pé da sua cama, despedi-me, beijei-a, já ia saindo, e ela me chamou.
— Que foi, vó?
Começou a fazer força para levantar. Apoiava-se no colchão, soerguia-se com dificuldade, arfava. Protestei:
Começou a fazer força para levantar. Apoiava-se no colchão, soerguia-se com dificuldade, arfava. Protestei:
— Onde a senhora vai, vó?
Não me deu ouvidos.
Não me deu ouvidos.
Pôs-se de pé e saiu arrastando as pernas cansadas pela casa, eu atrás, perguntando o que ela queria fazer, jurando que faria para ela, reclamando.
Ela foi até a despensa, atrás da cozinha, e de lá tirou um guarda-chuva.
Estendeu-o para mim:
— Está chovendo. Tens que te cuidar.
Em seguida, voltou para cama, para não mais se levantar.
Muito pensei sobre esse gesto da minha avó, praticamente o último da sua vida ativa.
Em seguida, voltou para cama, para não mais se levantar.
Muito pensei sobre esse gesto da minha avó, praticamente o último da sua vida ativa.
Um gesto de amor. Quantas vezes ela fez algo parecido por mim , bem como meu avô, minha mãe, minha madrinha..
Quantas vezes. E eu? O que lhe dava em troca?
Eu, mais preocupado com o que fazer no fim de semana, com a namorada, com o chopinho com os amigos, eu lhe dava quase nada, eu lhe oferecia migalhas, e muito lamentei por isso, depois que ela se foi.
Mas hoje, com meu filhinho nos braços, entendo a minha avó.
Mas hoje, com meu filhinho nos braços, entendo a minha avó.
Porque ele é tão pequeno, ele não tem nada para me dar, além de um sorriso.
Um sorriso, apenas, um pequeno sorriso.
Só que... não preciso de mais.
O que sinto por ele preenche o espaço de amor que existe entre nós.
Assim, um sorriso já é a minha boa recompensa.
Assim, um sorriso já é a minha boa recompensa.
Um sorriso é o que me basta.
Tomara que tenha dado sorrisos bastantes para a minha avó, tomara, tomara, tomara que pelo menos sorrisos não lhe faltasse, porque o amor que ela tinha por mim não faltou.
(David Coimbra)
Texto publicado no caderno "Meu Filho" do jornal Zero Hora
(David Coimbra)
Texto publicado no caderno "Meu Filho" do jornal Zero Hora
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